segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um tijolo é um objeto essencial?

Inspirado em uma postagem no blog da professora Marta Bellini, resolvi fazer o comentário ao final desse texto acerca do trecho de uma obra do físico Richard Feymann, que ela - a professora - extraiu da versão ibérica do livro que aqui transcrevo da versão brasileira. Portanto algumas palavras não são idênticas, mas os significados são notoriamente os mesmos.


"Eu sentava-me sempre com os físicos, mas ao fim de algum tempo pensei: 'Era agradável ver o que faz o resto do mundo e, por isso vou sentar-me durante uma semana ou duas em cada um dos outros grupos. Quando me sentei com os filósofos, ouvi-os discutir com muita seriedade um livro chamado Processo e Realidade de Whitehead. Utilizavam as palavras de maneira estranha e eu não conseguia entender muito bem o que diziam. Ora, eu não queria interromper a conversa deles para estar sempre pedindo que me explicassem qualquer coisa e, nas poucas ocasiões em que o fiz, eles tentavam explicar-me, mas eu continuava não entendendo. Por fim convidaram-me a ir ao seu seminário (...). O que lá aconteceu foi típico - tão típico que era inacreditável, mas verdadeiro. A princípio fiquei sem dizer nada, o que é quase inacreditável, mas também verdadeiro. Um aluno fez uma exposição sobre o capítulo estudado naquela semana. Nesse capítulo, Whitehead usava frequentemente as palavras 'objeto essencial' de um modo técnico particular, que tinha presumivelmente definido, mas que eu não compreendia. Depois de alguma discussão sobre o significado de 'objeto essencial', o professor que dirigia o seminário disse algo com o intuito de esclarescer as coisas e desenhou no quadro qualquer coisa semelhante a raios. 'Sr. Feynman', disse ele, 'diria que um elétron é um 'objeto essencial'?' Bem, agora eu estava em apuros. Admiti que não tinha lido o livro, pelo que não fazia ideia do que Whitehead queria dizer com a frase (...). 'Mas, disse eu, vou tentar responder à pergunta do professor se me responderem primeiro a outra pergunta, para que eu possa ter uma ideia melhor do que significa 'objeto essencial'. Um tijolo é um objeto essencial?' (...). Então vieram as respostas. Um indivíduo levantou-se e disse: 'Um tijolo é um tijolo específico, individual. É esse o significado de objeto essencial para Whitehead.' Outro afirmou: 'Não, não é o tijolo individual que é o objeto essencial; é a característica geral que todos os tijolos têm em comum - a sua qualidade de serem tijolos -, isso é que o objeto essencial.' Outro levantou-se e disse: 'Não, não está nos próprios tijolos. Objeto essencial significa a ideia que temos no nosso intelecto quando pensamos em tijolos'. Outro levantou-se e outro, e lhes digo que nunca ouvi antes maneiras tão diferentes e engenhosas de encarar um tijolo. E, exatamente como seria de esperar em todos as histórias sobre filósofos, acabou num caos completo. Em todas as discussões anteriores, nem sequer se tinham interrogado se um objeto tão simples como um tijolo era um objeto essencial, quanto mais um elétron. Depois disso, na hora do jantar, dirigi-me para a mesa da biologia. Tinha me interessado por biologia e estavam falavando de coisas muito interessantes (...)."

Trecho extraído de O sr. está brincando, Sr. Feymann?

O fragmento acima foi escrito pelo físico Richard Feymann. Ao contrário do que alguns afirmam, não é nenhuma manifestação anti-intelectual ou antifilosófica dele. Me parece mais um tipo de chamada de atenção, talvez algo com uma denúncia mesclada com um alerta, de como desenvolver o pensar coletivo. Por mais dísparas que possam ser as opiniões sobre um determinado tema, antes de mais nada precisamos estabelecer bases comuns de comunicação, para garantir que essa mesma comunicação seja feita inequivocamente. O método científico, que prefiro chamar de processo de fazer ciência, usa-se desse recurso. Não estou insinuando que deveríamos impor algum método à filosofia, ou a qualquer outro tipo de empreendimento intelectual. Está além disso. É o recurso (o da comunicação inequívoca) que a ciência empresta e utiliza. Um recurso indispensável para desenvolver qualquer processo de pensar coletivo. Caso contrário, o desenvolvimento intelectual não se desenrola, algo equivalente a se tentar construir o andar de um edifício sem ter concluído o andar de baixo. Básico!

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