quarta-feira, 8 de abril de 2009

Universo infinito no espaço e no tempo [1]

O sucesso do empreendimento humano chamado ciência, em muita medida, se deve por sua própria estrutura interna. Não há dúvidas que alguns pontos são questões realmente fechadas. Verdades científicas como "a Terra gira em torno do Sol" ou "a matéria é feita de átomos" ou "somos todos resultado de um lento e longo processo de descendência com modificação" parecem não terem como ser retrocedidas. Isso acontece porquê fazem parte de disciplinas "maduras", naquelas cujo arcabouço conceitual, empírico, observacional e experimental já se encontrou um elemento unificante. No demais, só há certezas dentro de sua margem de erro. É por isso que a ciência funciona. Para se fazer ciência, é necessário ter dimensão de nossa ignorância.
Algumas disciplinas "jovens" podem não possuir ainda esses elementos unificantes. Sua base observacional é muito fragmentária, e por isso não está presente um elemento unificador forte. Daí sua "juventude". Nelas, conjecturas, especulações e hipóteses, desde que lógicas e coerentes, ainda permeiam seus leitos. A Cosmologia é uma dessas disciplinas.
Falar sobre o universo é uma tarefa hercúlea. Pelo menos a consciência que temos hoje de que somos, temporal e espacialmente, insignificantes, nos serve de escudo para os enganos do passado medieval (e presente ainda em alguns fundamentalismos contemporâneos). Eles vinham de uma exclusividade humana no cosmo que não tem embasamento senão numa obsoleta filosofia de mundo egocêntrica.
Como em toda ciência jovem, a Cosmologia passa por vivos e intensos debates internos. Já foi assim na Astronomia de Galileu, na Física de Einstein, na Biologia de Darwin, e na Psicanálise de Freud. Seja por equívocos acadêmicos ou por vaidades intelectuais, essas questões abertas da Cosmologia infelizmente não são tratadas com o público geral. É como se não existissem.
Pois bem. Poucos sabem, mas a teoria do Big Bang, a Grande Explosão, que tenta descrever a origem e o desenvolvimento do universo é recentíssima, não tem nem 50 anos. É um modelo de cosmo importante, fomentou e fomenta muita pesquisa. E também tem fragilidades. Algumas são filosóficas e outras (talvez mais sérias por serem mais imediatas) são impíricas e observacionais. De modo que hoje está sendo desenhado um outro modelo de universo, uma alternativa ao Big Bang. As duas são teorias científicas, então estão realmente cumprindo seu papel dentro desse empreendimento coletivo para compreender o mundo. Não é como a (falsa) polarização entre Evolução X Criação, já que o segundo não é ciência, é mitologia, e portanto não são sequer comensuráveis já que possuem objetos distintos.
As próximas postagens terão portanto esse tema. A teoria do Big Bang e uma teoria sem nome específico, ainda em formação, que está ganhando interesse de muitos astrônomos jovens, mas foi inaugurada pelo veterano Halton Arp: a teoria do universo infinito no espaço e no tempo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

200 anos do nascimento de Darwin


O legado intelectual e humano de Charles Darwin é revolucionário. E, como todo legado revolucionário, sofre enormemente por barreiras do conservadorismo, e nesse caso específico, do fundamentalismo religioso.
Transcrevo uma breve matéria sobre os efeitos psicológicos e filosóficos da Teoria da Seleção Natural de Darwin, publicado no site do jornal O Estado de São Paulo.
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As ideias de Darwin ainda ‘assustam’
No bicentenário do naturalista, muitos ainda têm dúvidas sobre sua teoria, apesar das comprovações científicas
Herton Escobar, De O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Se Charles Darwin estivesse vivo para comemorar seu aniversário de 200 anos, hoje, é provável que haveria protestos diante de sua casa. Pesquisas mostram que, mesmo com todas as evidências científicas acumuladas nos últimos 150 anos, desde a publicação de A Origem das Espécies, a aceitação de sua teoria da evolução por seleção natural ainda enfrenta dúvidas e angústias entre o grande público - principalmente no que diz respeito à evolução dos seres humanos.

"Para muitas pessoas, a ideia da seleção natural é simplesmente repugnante, ameaçadora, assustadora", disse ao Estado o filósofo americano Daniel Dennett, da Universidade Tufts, em Massachusetts. "Sem falar, é claro, que ela derruba qualquer argumento razoável que alguém já teve para a existência de Deus. Não surpreende que tanta gente esteja sedenta por evidências que questionem a teoria."

Dennett é, ao lado do britânico Richard Dawkins, um dos defensores mais ferrenhos do darwinismo e do ateísmo. Em 1995 ele publicou o livro A Perigosa Ideia de Darwin: a Evolução e os Significados da Vida. Agora, em 2009, diz ele, a teoria darwiniana - de que todos os seres vivos, incluindo o homem, evoluíram de um ancestral comum por mecanismos puramente biológicos de mutação e seleção - continua tão "perigosa" quanto em 1859.

"Além das motivações religiosas, há pessoas que interpretam a ideia de que somos ‘máquinas’ biológicas projetadas pela seleção natural para propagar genes como uma ameaça ao seu ego e à sua autonomia moral", diz Dennett. Segundo ele, porém, o fato de sermos produtos dos genes não significa que estejamos subordinados a eles. "Nossa autonomia é real, mas não é absoluta - nem tão misteriosa nem miraculosa. Ela evoluiu da mesma forma que nossos olhos e nossa memória. Nossa liberdade é um produto da evolução. Se as pessoas entendessem isso - algo que, admito, está longe de ser óbvio - elas não se sentiriam tão ameaçadas pela ideia de uma ciência materialista
[no sentido filosófico do termo, não no senso comum] que explique a existência humana. Essa ciência não substituiria a ética, as artes ou as humanidades; ela seria sua fundação."

Mesmo na Inglaterra, o país de Darwin, uma pesquisa divulgada na semana passada mostra que metade das pessoas não acredita na teoria da evolução - ou, pelo menos, tem sérias dúvidas sobre ela. Os resultados incluem um gradiente de opiniões, polarizadas por aqueles que descartam completamente a evolução até aqueles que descartam completamente a existência de Deus.

O professor de sociologia Antônio Pierucci, da Universidade de São Paulo, diz que a rejeição a Darwin é compreensível e que a aceitação da origem evolutiva do homem deverá aumentar com o tempo. "Imagine como foi difícil para as pessoas, nos séculos 16 e 17, aceitarem que a Terra girava em torno do Sol", compara.

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É evidente que a Teoria da Seleção Natural e a Evolução Biológica não são decisivas a favor do ateísmo, como também é inegável que aponte para ele. O fato é que o devastador efeito da descoberta do naturalista britânico é um balde de água fria para o pensamento dogmático da religião. E o que surpreende é que, se o robusto empreendimento intelectual de Darwin ainda é um problema tão grande nesse aspecto, é sinal de que o dogmatismo religioso ainda está perigosamente presente entre nós.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Para além do LHC

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O Grande Colisor de Hádrons (LHC, do inglês "Large Hadrons Collider") é, de longe, o acelerador de partículas subatômicas maior de todos os tempos. Alguns historiadores entendem que é o maior esforço científico cooperado da humanidade. Muito se espera compreender nas próximas décadas, em que o equipamento se tornará operacional, no que se refere à constituição mais elementar da matéria. Desde corroborar (ou não) com modelos teóricos atualmente aceitos no campo da física de partículas até novas e imprevistas constatações. Tudo isso porque as energias cinéticas das partículas aceleradas nele (que atingirão 99,999999% da velocidade da luz!) são altíssimas, e então poder-se-ão realizar observações nesses extremos energéticos, que são comuns só em situações especiais e em pontos pouco acessíveis do universo (no interior do Sol, no intensíssimo campo magnético dos pulsares, etc). Mas o Grande Colisor também trará outra questão, menos física e mais humana: a de como se desenvolverá a "sociablilização" científica (pelo menos na área da física das altas energias) de agora em diante.
De fato, uma característica comum nas ciências, em especial nas ciências da natureza, é a relação dialética competição/cooperação em seu desenvolvimento evolutivo. O teste experimental é realizado por um corpo de cientistas independentes, onde um laboratório pode aumentar a precisão, o número de dados de uma experiência e detectar possíveis falhas realizada anteriormente em outro. O resultado do processo é uma espécie de aumento na qualidade dos dados extraídos, e ao mesmo tempo uma depuração, em que enganos e erros (e eventualmente até falsificações) são filtrados durante a construção da consensualidade entre os vários componentes da comunidade científica.
Até a primeira metade do século XX isso era prática comum, já que cada experimento envolvia baixo custo e até se dava ao luxo de poder ser realizado por um único estudioso. Mas a complexidade aumentou em vários níveis. Hoje é difícil um único cientista levar a cabo um experimento inteiro. Isso só ocorre em equipes. Os aparatos experimentais, instrumentais, etc, necessitam de grandes financiamentos. O que significa que nem todos os laboratórios podem reproduzir, por limites materiais e técnicos, alguns tipos de atividade experimental.
E o LHC parece ser o caso extremo disso: não há nenhum outro igual no mundo. Então como se dará o processo de depuração de seus resultados mais fantásticos? Como fica o "controle de qualidade" e o espírito de cooperação científico na construção do conhecimento se se trata de um laboratório único? Talvez o depurador dos dados extraídos do LHC virá apenas do observacional, da natureza, do que os telescópios captarem das explosões estelares ou dos objetos mais exóticos da "fauna" cósmica. Ou talvez isso não será possível, pelo menos não a nosso contento, já que observações astrofísicas são de difícil acesso uma vez que os eventos estudados nessa área
ocorrem a distâncias literalmente astronômicas. Ou confiaremos em seus resultados analisados e confirmados por ele mesmo? A história parece demonstrar que instituições auto-sustentadas geralmente nos levam a caminhos enganosos.
Assim como o processo experimental, iniciado por Galileu, foi um marco na construção do conhecimento humano, que passou a ser menos contemplativa e mais efetiva, talvez esse novo grande acelerador de partículas exija um equivalente salto de qualidade no que se refere a prática da ciência.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Astronomia emotiva

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Em uma noite de verão, eu e minha namorada à beira de um lago conversávamos e observávamos o céu, quando ela disse:
- A lua está tão romântica hoje não?
E então respondi:
- Na verdade trata-se de uma lua cheia de perigeu. Nessa circunstância ela se encontra a "apenas" 380 mil quilômetros da Terra e apresenta uma luminosidade até 20% maior que a habitual.
Não sei porque, nosso namoro terminou naquela noite.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ciência versus Religião - Uma falsa polarização

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As inúmeras discussões sobre o tema religião versus ciência estão mais que superadas, mas surpreendentemente existem ainda hoje, até com certa dose de ânimo. Na decadência da Idade Média essa polarização fazia sentido, pois naquela época o concepção de ciência era profundamente ligada a teologia católica medieval, de modo que a discussão surgiu com o Renascimento, que ressignificava a ciência no que veio a se tornar em sua acepção moderna hoje.

Dessa forma ciência e religião passaram a ser grupos separados, distintos e incomensuráveis da criatividade, o que significa que comparações entre ambas é a busca de uma sobreposição inexistente nesses dois campos da atividade humana.
A ciência é a relação dialética entre o impírico e a razão, com uma dinâmica interna cheia de contradições que jamais lhe são um empecilho, pelo contrário, são o motor de seu desenvolvimento. As concepções teóricas são confrontadas com o observacional e o experimental, que permitem surgir novas concepções teóricas, as vezes muito diferentes das anteriores, mas mais abrangentes (os chamados Paradigmas de Thomas Khun). Sua linguagem é padronizada de modo que os membros de sua comunidade possam integrar-se e testarem-se mutualmente. É uma ferramenta que traz interpretações de mundo em constantes mudanças que não são aleatórias: estão sempre na direção do menos preciso para o mais preciso. Isso é possível porque essa dinâmica interna lhe é um instrumento de auto-correção. Até a mais sólida teoria científica, independente da autoridade de seus criadores, cai por terra se não der conta do que é observado e experimentado.
A religião tem origem na revelação e se sustenta em dogmas. Estes são imutáveis por definição, portanto não corrígíveis, mas em nenhum momento pretendeu sê-los. Suas figuras de autoridade são infalíveis e estão imunes de quaisquer críticas. Sua linguagem não é objetiva, traz elementos muito particulares de outros períodos históricos, termos cifrados e até incoerências internas. Isso leva a interpretações múltiplas que tem gerado inúmeras dissidências e aumentado a diversidade de mitologias no decorrer da história, onde nenhuma é mais ou menos abrangente ou mais ou menos significativa que a outra.
Um das razões da confusão entre os campos da ciência e da religião se dão porque em um aspecto elas parecem se interseccionar: ambas tentam explicar a origem do mundo e da vida. Mas isso se dá apenas na esfera da aparência.
A religião, para explicar o mundo e a vida, lança mão de suas mitologias cosmogônicas, cheias de metáforas e alegorias, não se preocupando com a literalidade das descrições, mas sim na tentativa de dar sentido a elas a partir de seus próprios valores morais.
A ciência busca, dentro de seus autoconhecidos limites, a origem material do mundo e da vida. E então, em seguida, confronta o modelo teórico criado com o observado, a procura de falhas ou êxitos nele. Dessa forma subjetividades morais do cientista têm dificuldades de se infiltrar na teoria. A ciência, assim, pode contribuir em uma significação para a vida e para o mundo depois, e não antes de estudá-la.
Com essas radicais diferenças ressaltadas, temos condição de identificar a outra parte da confusão que se faz entre estes dois campos da criação humana: a que se dá quando a religião é impregnada de elementos sectários. Na religião sectária (ou fundamentalista) não autorreconhece-se como mitologia, atribui-se verdade absoluta a seus preceitos e escrituras sagradas, e intrepreta-se literalmente o que foi criado em linguagem metafórica. Quando uma religião se concebe assim, impõe-se à realidade da natureza e obriga o mundo a se adequar ao seu monolítico modelo descritivo. É neste momento que seus auto-entitulados líderes invadem o campo da ciência, e não o inverso como geralmente afirmam. O exemplo mais notável disso é a movimentação de grupos fanáticos cristãos - originários do sul dos Estados Unidos e hoje já presentes no Brasil - contra a Teoria da Evolução das Espécies, criando uma particular falsa polarização de ciência versus religião que apareceu sob a expressão "evolucionismo versus criacionismo". E, diga-se de passagem, a diferença entre essas noções de religião sectária (que vê seus escritos sagrados como literais e verdadeiros) e religião não-sectária (que vê seus escritos sagrados como metafóricos e alegóricos) é fundamental, ou estaremos correndo o risco real de presenciarmos uma nova Idade das Trevas em plena contemporaneidade.