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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

30 anos da série Cosmos

Até hoje fico imaginando como deve ter sido, em todos os aspectos, o meu primeiro contato com a série Cosmos. Eu era muito pequeno, acho que nem alfabetizado ainda, quando assisti o primeiro episódio que era transmitido nos domingos à noite. Ainda lembro de muitas cenas daqueles dias, que me enchem de emoção e fascínio quando reassisto agora, quase três décadas depois. Fico imaginando o quão determinante a série foi para que eu seguisse a formação que trilho hoje, científica e humana, juntas. Porque essa foi a unificação das mais belas que poucos souberam fazer, como Carl Sagan: falar sobre o Cosmos trazendo-nos esse profundo sentimento de fascínio e reverência que a Ciência revela. Ciência que nos eleva às experiências mais magníficas que a psiqué humana é capaz de alcançar, ao lado da literatura e da arte.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ciência versus Religião - Uma falsa polarização

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As inúmeras discussões sobre o tema religião versus ciência estão mais que superadas, mas surpreendentemente existem ainda hoje, até com certa dose de ânimo. Na decadência da Idade Média essa polarização fazia sentido, pois naquela época o concepção de ciência era profundamente ligada a teologia católica medieval, de modo que a discussão surgiu com o Renascimento, que ressignificava a ciência no que veio a se tornar em sua acepção moderna hoje.

Dessa forma ciência e religião passaram a ser grupos separados, distintos e incomensuráveis da criatividade, o que significa que comparações entre ambas é a busca de uma sobreposição inexistente nesses dois campos da atividade humana.
A ciência é a relação dialética entre o impírico e a razão, com uma dinâmica interna cheia de contradições que jamais lhe são um empecilho, pelo contrário, são o motor de seu desenvolvimento. As concepções teóricas são confrontadas com o observacional e o experimental, que permitem surgir novas concepções teóricas, as vezes muito diferentes das anteriores, mas mais abrangentes (os chamados Paradigmas de Thomas Khun). Sua linguagem é padronizada de modo que os membros de sua comunidade possam integrar-se e testarem-se mutualmente. É uma ferramenta que traz interpretações de mundo em constantes mudanças que não são aleatórias: estão sempre na direção do menos preciso para o mais preciso. Isso é possível porque essa dinâmica interna lhe é um instrumento de auto-correção. Até a mais sólida teoria científica, independente da autoridade de seus criadores, cai por terra se não der conta do que é observado e experimentado.
A religião tem origem na revelação e se sustenta em dogmas. Estes são imutáveis por definição, portanto não corrígíveis, mas em nenhum momento pretendeu sê-los. Suas figuras de autoridade são infalíveis e estão imunes de quaisquer críticas. Sua linguagem não é objetiva, traz elementos muito particulares de outros períodos históricos, termos cifrados e até incoerências internas. Isso leva a interpretações múltiplas que tem gerado inúmeras dissidências e aumentado a diversidade de mitologias no decorrer da história, onde nenhuma é mais ou menos abrangente ou mais ou menos significativa que a outra.
Um das razões da confusão entre os campos da ciência e da religião se dão porque em um aspecto elas parecem se interseccionar: ambas tentam explicar a origem do mundo e da vida. Mas isso se dá apenas na esfera da aparência.
A religião, para explicar o mundo e a vida, lança mão de suas mitologias cosmogônicas, cheias de metáforas e alegorias, não se preocupando com a literalidade das descrições, mas sim na tentativa de dar sentido a elas a partir de seus próprios valores morais.
A ciência busca, dentro de seus autoconhecidos limites, a origem material do mundo e da vida. E então, em seguida, confronta o modelo teórico criado com o observado, a procura de falhas ou êxitos nele. Dessa forma subjetividades morais do cientista têm dificuldades de se infiltrar na teoria. A ciência, assim, pode contribuir em uma significação para a vida e para o mundo depois, e não antes de estudá-la.
Com essas radicais diferenças ressaltadas, temos condição de identificar a outra parte da confusão que se faz entre estes dois campos da criação humana: a que se dá quando a religião é impregnada de elementos sectários. Na religião sectária (ou fundamentalista) não autorreconhece-se como mitologia, atribui-se verdade absoluta a seus preceitos e escrituras sagradas, e intrepreta-se literalmente o que foi criado em linguagem metafórica. Quando uma religião se concebe assim, impõe-se à realidade da natureza e obriga o mundo a se adequar ao seu monolítico modelo descritivo. É neste momento que seus auto-entitulados líderes invadem o campo da ciência, e não o inverso como geralmente afirmam. O exemplo mais notável disso é a movimentação de grupos fanáticos cristãos - originários do sul dos Estados Unidos e hoje já presentes no Brasil - contra a Teoria da Evolução das Espécies, criando uma particular falsa polarização de ciência versus religião que apareceu sob a expressão "evolucionismo versus criacionismo". E, diga-se de passagem, a diferença entre essas noções de religião sectária (que vê seus escritos sagrados como literais e verdadeiros) e religião não-sectária (que vê seus escritos sagrados como metafóricos e alegóricos) é fundamental, ou estaremos correndo o risco real de presenciarmos uma nova Idade das Trevas em plena contemporaneidade.

domingo, 16 de março de 2008

Perspectiva: arte como uma das fontes inspiradoras à ciência moderna

Durante a Renascença, um novo olhar na expressão artística da pintura viria a mudar para sempre a técnica e as ciênicas: a perspectiva. Antes, as pinturas medievais eram criadas com aquilo que ficou conhecido como "espaço agregado". Não importava a distância ao observador; o tamanho dos objetos retratados variava conforme o grau de importância dada a eles de acordo com a hierarquia social da Idade Média da Europa.
Também era comum durante o medievo, a representação do céu em cor dourada. O céu e a terra eram sempre separados, desconectados, remetendo a existência de um mundo da perfeição e um da corrupção. Essa era a influência da visão aristotélica dicotômica para os movimentos celestes e terrenos, adotada e desenvolvida por toda a Idade Média européia.

A Última Ceia - Duccio - Nesta pintura , os apóstolos sentados mais próximos ao
observador são menores do que os que estão mais adiante.



Chegada de Cristo a Jerusalém - Pietro Lorenzetti - Céu e Terra estão nitidamente separados.
Também não há uma perspectiva claramente estabelecida. Os personagens e figuras representados
têm suas dimensões definidas por grau de importância, sem relação com sua localização espacial.

Com o emprego da perspectiva como técnica na arte da pintura, a partir da Renascença, uma nova concepção de espaço surgira. Empregaram o chamado ponto de fuga, uma convergência imaginária para onde rumavam todas as retas paralelas da pintura para ele, do teto e o solo. Engenheiros e técnicos passaram a usar esse artíficio também em seus trabalhos.
Nessa representação do tridimensional no plano, céu e terra se encontravam no infinito, e o espaço já não tinha limites.

A Última Ceia - Leonardo Da Vinci - As retas paralelas do chão, das paredes, da mesa
e do teto se projetam a um ponto imaginário comum. Nesse ponto de confluência não
há separação entre o céu e a terra, que se encontram.


O casamento da virgem - Rafael - O quadriculado no chão reforça a idéia de perspectiva,
um artifício muito usando pelos artistas da renascença. A idéia de espaço infinito fica
denotada na obra, que também não separa elementos do céu e da terra.

A nova forma de se representar a geometria do espaço nas artes, substituindo a visão particular da Idade Média influenciou, assim, a nova concepção de mundo que a Ciência Moderna viria revelar. Manifestou-se pela unificação do céu e da terra, da mecânica celeste e da mecânica terrestre, iniciada de maneira mais sintética por Galileu e concluída com Newton. A inédita concepção espacial adotada pela ciência não viria, portanto, do interior da filosofia natural, e sim do mundo das artes. A própria mecânica, que então passou a entender que os movimentos celestes e terrestres eram regidos por um mesmo princípio (a gravitação universal) foi herdeira de artistas que souberam conceber e construir um novo espaço.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Luz e Encantamento

Talvez possamos dividir a produção intelectual humana em três grandes categorias: a mitológica, a artística e a científica. Mesmo que recentemente percebi nascer um discreto mas crescente interesse pelas duas primeiras, tenho enorme deslumbre pela terceira. Não compreendo muito bem as razões disso, apesar de talvez possuir um esboço mentalizado primitivo para entendê-lo. De qualquer forma, esse não é o nosso tema central.
A visão de universo que a Ciência Moderna nos trouxe jamais havia sido alcançada antes. Ela e seus métodos, inaugurados ou sintetizados por Galileu, permitiram uma amplidão em nossa compreensão do Cosmo que nossos limitados sentidos moldados em Eras de Seleção Natural jamais alcançariam. A tecnologia fruto dela, hoje, seria, aos olhos de nossos antepassados, confundida com pura magia. E talvez seja aí que o importante entra: o fascínio e o deslumbramento que a Ciência proporciona em nossa compreensão de mundo, suas origens e até da nossa própria origem é, num sentido todo especial, mágico.
Ao contrário do que muito se propaga, a visão científica das coisas não tira seu encanto. Esse é um equívoco até certo ponto compreensível, de quem vê que, no contexto da modernidade, muito se perdeu na nossa capacidade de nos encantarmos até com a própria vida. Penso que a razão dessa “depressão” se encontra na própria forma como a sociedade se organizou (capitalismo), cujo arremate final já havia sido dado no meio do século XIX. O capital reduz tudo ao seu interesse utilitário. Da Ciência, ele retira apenas seu substrato de interesse imediato – basicamente a técnica. Essa é uma questão que só será resolvida quando a humanidade decidir superar a Ordem do Capital. O fato é que a Ciência não se resume à técnica. É essa incorreta redução que nos induz a atribuí-la o falso adjetivo de “fria”. Saber que a fusão de átomos de hidrogênio no coração de uma estrela é a razão de sua energia diminui o seu brilho? Saber que a estrutura regular na disposição de átomos de carbono num diamante lhe conferem as propriedades geométricas e óticas retira sua beleza? Saber que as pressões seletivas é que moldaram as flores de uma planta anulam seu perfume? Jamais! É estimulante descobrir que a Natureza se expressa de formas tão ricas e variadas a partir do que é simples: dos equilíbrios na física, dos elementos fundamentais na química e da base genética comum da vida na biologia.
Somente a Ciência Moderna, ao se incumbir da enorme pretensão de entender todas as coisas, nos traz alguma luz para compreensão real do mundo e um encanto genuíno perante a Natureza. Essa luz e esse encanto serão os temas deste espaço.